Apresentação da Técnica

A Gastrostomia Endoscópica Percutânea (PEG) é uma técnica endoscópica que consiste na introdução de uma sonda na cavidade gástrica através da parede abdominal, com a ajuda da endoscopia digestiva alta, e que permite a administração de comida, líquidos e medicação, em doentes que não conseguem deglutir por diversas razões. O procedimento tem uma duração aproximada de 30 minutos. Existem várias técnicas de introdução da sonda, sendo o método de “Pull” o mais comummente utilizado. As sondas podem ter calibres variáveis, tendo as mais utilizadas cerca de 8mm de diâmetro. Após discutir com o médico os benefícios e os riscos associados à colocação de uma sonda de PEG, o doente ou o seu responsável (quando o doente não tem capacidade) assina um consentimento informado que permite a realização da técnica. 

O procedimento, realizado com sedação endovenosa, inicia-se com a realização de uma endoscopia digestiva alta (EDA), ou seja, o médico introduz na boca do doente um tubo longo e flexível (endoscópio), com uma câmara incorporada na sua extremidade, que progride através do esófago, estômago e primeira porção do intestino delgado (duodeno), permitindo a visualização do tubo digestivo alto e a exclusão de lesões que contraindiquem a colocação da PEG. A endoscopia permite ainda a visualização do local mais correto para o posicionamento da sonda de PEG e o controlo direto da sua colocação. O procedimento é efetuado por 2 médicos, em que um deles realiza a EDA e o outro fica responsável pela técnica não endoscópica a nível da parede abdominal. 

Durante a EDA, o médico insufla o estômago com ar através do endoscópio e, ao iluminar a parede gástrica, o outro médico determina o ponto da parede abdominal onde a iluminação é mais intensa (ponto de maior transiluminação). Esse ponto é identificado endoscopicamente, pois corresponde à saliência da parede gástrica anterior produzida pela pressão do dedo na parede abdominal. Idealmente esta área deveria ficar aproximadamente 2,5cm abaixo da grelha costal e afastada da extremidade inferior do esterno. 

Uma vez identificado o local ideal para colocar a sonda de PEG, o médico desinfeta a parede abdominal, anestesia esse ponto com uma injeção de lidocaína e, seguidamente, faz uma pequena incisão com um bisturi (com cerca de 0,5-1cm de extensão e 2-3mm de profundidade). Aquando da aplicação da anestesia local, à medida que se introduz a agulha na parede abdominal, aspira-se continuamente para assegurar um bom trajeto até ao estômago, e identificar uma eventual interposição do intestino.

Através da incisão introduz-se um cateter, que atravessa a parede abdominal e entra na cavidade gástrica, sob visualização endoscópica direta.

Quando o cateter é visualizado na cavidade gástrica, o médico que está a realizar a endoscopia passa uma ansa através do endoscópio, que vai enlaçar um fio-guia introduzido no estômago através do cateter da parede abdominal (após remoção da agulha). Nesta fase remove-se o endoscópio e simultaneamente o fio-guia, que se exterioriza pela boca, mantendo a ligação entre a parede abdominal e o interior do tubo digestivo. 

O médico responsável pela endoscopia solta o fio-guia da ansa a que estava preso e segura-o com a mão, de modo a enlaçar o tubo da PEG, que se lubrifica com gel e fica junto à boca.

Neste momento o médico responsável pelos procedimentos abdominais começa a puxar a extremidade do fio que está junto ao cateter da parede abdominal, o que condiciona a entrada da sonda da PEG para o interior da boca e a sua progressão ao longo do esófago até chegar ao estômago, altura em que se exterioriza na parede abdominal através da incisão previamente realizada. A extremidade interna da sonda da PEG tem uma saliência em forma de botão que se fixa à parede gástrica (sem tensão excessiva) e impede a sua exteriorização. 

Nesta fase introduz-se novamente o endoscópio para confirmar o correto posicionamento da extremidade interna da sonda e para verificar o seu funcionamento, através da administração de pequena quantidade de água pela sonda. Se a PEG estiver operacional retira-se o endoscópio.

Para terminar o procedimento corta-se o fio-guia que estava a enlaçar a extremidade da sonda da PEG e passa-se uma borracha em forma de botão através da porção externa da sonda, que se pressiona contra a parede abdominal (deixando uma margem de 1 a 2 cm), permitindo a estabilização do tubo. 

Se a porção externa da sonda for muito longa o médico poderá cortar parte do tubo, de modo a manter cerca de 15 a 20cm. 

Na extremidade do tubo aplica-se um adaptador por onde se administra a alimentação. A sonda poderá ser utilizada cerca de 4 horas após a sua colocação, na ausência de complicações (por exemplo, dor abdominal persistente, distensão abdominal, febre ou hemorragia). 

O doente fica internado cerca de 24 horas após o procedimento para vigilância de eventuais complicações. 

Nos dias seguintes à colocação da PEG o doente pode referir algum desconforto no local de inserção da sonda, que alivia com analgésicos. 

A equipa de médicos e enfermeiros prestam os esclarecimentos necessários relativos à manutenção, limpeza e administração de alimentação pela sonda, bem como à vigilância de sinais de alarme (infeção cutânea no local de inserção da sonda, extravasamento de conteúdo gástrico pelo orifício da parede abdominal, deterioração da sonda, dor abdominal persistente no local de inserção da sonda). 

Um nutricionista poderá dar as informações relativas ao tipo de alimentação e dieta a administrar a cada doente, bem como mostrar as várias fórmulas disponíveis no mercado. 

Os cuidados a ter com uma sonda de PEG variam de doente para doente, mas os cuidados de limpeza da sonda após cada administração de alimentação ou fármacos e o cuidado com o local de inserção da sonda são transversais. Além disso, todos os doentes devem ser medicados com inibidor da secreção ácida gástrica. Habitualmente, se as recomendações forem seguidas pelos cuidadores, não é necessário substituir a sonda de PEG durante vários meses (havendo casos em que a PEG se mantém durante 1 a 2 anos).